Lições da crise de segurança no Espírito Santo

crise-no-espirito-santoEsta edição do boletim De olho na política destaca os dilemas da segurança pública no Brasil que, na semana de 6 a 12 de fevereiro de 2017, voltaram a ocupar as manchetes na imprensa nacional e internacional. O recrudescimento da violência no estado do Espírito Santo, em decorrência da paralisação de forças policiais, ocorre cerca de um mês depois da sucessão de massacres e rebeliões em presídios de oito unidades da Federação (saiba mais aqui).

Black-out da segurança pública no Espírito Santo

Policiais Militares do estado do Espírito Santo deixaram de patrulhar as ruas. Viaturas foram impedidas de sair dos batalhões em razão de manifestações feitas, sobretudo, pelas esposas e parentes dos policiais. Os manifestantes reivindicavam reajuste salarial e o pagamento de outros benefícios (leia aqui). O movimento se estendeu rapidamente a todos os quartéis, apesar de a Justiça o haver considerado ilegal.

A falta de policiamento facilitou a ação de criminosos. Saques ao comércio, homicídios e outros delitos espalharam o terror junto à população. Na imprensa, os números são desencontrados, mas no sábado (11) já se falava em mais de uma centena de mortes (leia aqui).

Em resposta, o governo do Espírito Santo transferiu o controle operacional dos órgãos de segurança pública para as Forças Armadas (leia aqui). No final da semana, os serviços começaram a ser retomados.

 

O que reivindicavam os policiais?

O salário base de um policial no estado do Espírito Santo é de R$ 2,6 mil. É o valor mais baixo pago a um policial militar, no início de sua carreira, em todo o país. A média nacional é de R$ 4 mil (leia aqui). As reivindicações por melhores condições de trabalho vêm se arrastando há vários anos (ouça a reportagem). Além disso, os manifestantes exigem a anistia para os policiais, já que eles são legalmente impedidos por de fazerem greve, ato passível de punição.

 

A situação capixaba e o desmonte da máquina pública

A análise sobre a crise no Espírito Santo assume linhas diversas. Entre elas destacam-se aquelas que a entendem como um resultado da crise fiscal por que passa o estado. Sob esse ponto de vista, ela seria um reflexo da política econômica e do refreamento dos investimentos privados no setor produtivo ocorridos nos últimos anos.

Essa hipótese de leitura trata a crise capixaba atual como argumento para justificar o incremento do desmonte do Estado.  Nesse caso específico, a crise resultaria da adoção constante de medidas que precarizam serviços públicos e direitos sociais. Na forma de enfrentamento do conflito gerado pelo desmonte desses serviços, destaca-se, por parte do governo, a pouca disposição para o diálogo com os policiais em greve e a falta de iniciativas para amenizar as consequências das políticas implantadas.

Em sendo válida essa leitura, a hipótese que se levanta é a de que os movimentos de policiais podem se multiplicar em outros estados. Também existe a possibilidade de que surjam ações semelhantes, protagonizadas por outros setores do funcionalismo público, os quais se encontram acuados por medidas de enxugamento e desmonte dos serviços públicos aplicadas no plano federal e já reproduzidas em alguns estados (leia aqui).